Sobre palavras,
sonhos e sutileza
Desde pequena gostava de inventar
histórias. Filha única, nasci em Tietê, cidadezinha interiorana em que todo
mundo conhece todo mundo, as ruas são tranqüilas e há árvores espalhadas pelas calçadas. Quando era criança, gostava de pegar meus
brinquedos e ir com eles para onde eu quisesse: íamos juntos para fazendas,
florestas, para o Pólo Norte, Sul ou até mesmo para a (minha) África. Mas, na
maioria das vezes, eu não precisava da ajuda dos meus brinquedos. Apenas
deitava no sofá, ficava olhando o céu e me perdendo no meu mundo de fantasias.
À medida que fui crescendo, sentia
a necessidade de colocar minhas histórias no papel. Minha mãe costumava me
levar todas as semanas à biblioteca da cidade e logo peguei gosto pela leitura. E daí eu não parei mais.
Todos os anos ganhava um diário novo, onde eu contava para aquelas páginas
cheias de ursinhos e corações sobre meus medos, meus sonhos e meus amores
platônicos e inocentes de quando eu era quase uma adolescente.Quando estava no colegial, minha
paixão por livros, pintura e música acompanhava também a vontade adolescente de
“salvar o mundo”, mas parecia era algo tão maior que eu, tão inalcançável.
Lembro que uma vez meus amigos e eu tivemos a ideia de ir tocar modas de viola
no asilo da cidade. “Os velhinho iriam adorar, iam ficar superfelizes!”.
Gravamos até um cd com as músicas que entrariam no repertório, mas a falta de
talento musical nos fez adiar todas as apresentações. Ficaram os planos, a vontade
e a memória de canções que não se concretizaram.
Na época, já tinha pensando em
ser jornalista várias vezes, mas também queria ser artista, psicóloga,
musicista. Mas o gosto pela escrita e a ingênua vontade de mudar as coisas fizeram com que eu optasse pelo jornalismo. E depois de muitos estudos e
dedicação, lá estava eu em Bauru, numa universidade pública!
Na faculdade conheci muitas
pessoas como eu, que buscavam ir “contra a corrente”, gostavam de escrever poesia
e conversar sobre o Woodstock. Durante os anos, minha vontade e certeza de que
queria ser jornalista foram crescendo, apesar de algumas frustrações ao longo
do caminho. Com o tempo, descobri que não dava para salvar o mundo daquela
maneira que falavam os livros, mas podia tocar uma pessoa por meio de palavras e
salvá-la do desconhecimento, da dúvida ou simplesmente da solidão. E com isso
descobri a enorme e sutil importância do jornalismo para as pessoas.
Hoje, às vezes olho para trás e
vejo aquela garota com brilho nos olhos, que lutava para conciliar influências
de Aldous Huxley e Clarice Lispector no mesmo texto, tocava Beatles e se
divertia com a idéia de sair plantando flores pelos buracos de cimento nas
calçadas. Fico pensando o quanto dela ainda existe em mim e se ela se
orgulharia de me ver onde estou hoje. E fico feliz, realmente muito feliz, em
pensar que aquela garota pudesse abrir um sorriso maior que o mundo se soubesse
que descobri o quanto simples gestos, simples palavras escritas, podem fazer a
diferença. Que você não precisa ser maior que o mundo para ajudá-lo, basta
fazer aquilo em que você acredita.

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